A pobreza regenera o futuro

Os grandes processos de mudança, os que conseguem regenerar o corpo inteiro e dar início a uma nova primavera, não são nunca desencadeados e guiados pelas elites que estavam no governo quando emergiu a crise. Trata-se de uma conhecida dinâmica que sempre se verifica, e que vale também no caso das entidades que designámos comunidades e movimentos carismáticos (nascidos de um carisma, um dom que oferece a possibilidade de ter “olhos diferentes” para ver o mundo).

Tarefa difícil e verdadeiramente fundamental de quem tem que gerir uma entidade carismática viva mas em declínio, é compreender – se possível no momento certo – que o mais importante processo a ativar é criar, retirando-se, espaços de liberdade e de criatividade que permitam o emergir de dinâmicas novas, de pessoas diversas das que eles mesmos geraram. Ser capaz de vê-las no filho mais novo que não está em casa (levou o rebanho a pastar), no menino de uma pequena cidade de Judá, no irmão rejeitado e vendido como escravo. Pelo contrário, quando as classes dirigentes pensam – em boa fé, muitas vezes – que devem ser elas mesmas a gerir a mudança, quase inevitavelmente acabam por agravar a doença que pretendiam curar. (…)

A renovação é um processo decisivo que deverá envolver e ativar os espaços vivos da criatividade, indo ao seu encontro, nas fronteiras do império. Tudo isto é, certamente e antes de mais, dom (charis); mas é também sabedoria organizativa, profunda inteligência espiritual, profética e transformadora. (…)

É erro típico que se comete durante as fases de transição o pensar que o reduzido poder de atração da mensagem tem a ver apenas com o exterior da comunidade, que não esteja presente extensa e profundamente também no seu interior. Não se compreende que, se não se partilharem histórias novas e antigas que, em primeiro lugar, reacendam os próprios membros e vocações, nunca mais se conseguirão atrair pessoas novas. Muitas novas “evangelizações” acontecem quando, ao contar aos outros a boa nova, conseguimos também nós redescobri-la nova e diversa. É assim que renasce uma nova-antiga história de amor, um novo eros, novos desejos, nova capacidade de gerar, novos bébés. Durante as crises, as energias morais são escassas; é crucial a escolha das prioridades em que investir: enganar-se na sequência e na importância das intervenções é um erro fatal. Quando se alteram as estruturas antes de repensar a missão do carisma, o risco concreto é um engano na direção da mudança.

Os movimentos e as comunidades carismáticas vivem, também, e ajudam a viver bem, se e enquanto forem capazes de atualizar a sua mensagem-carisma, fazendo com que ela penetre profundamente nas linguagens e nos sonhos do presente; assim atraem as pessoas melhores de hoje. *A renovação nasce antes de mais de frequentar as novas periferias onde se encontram novas necessidades, de escutar os desejos de famílias e jovens*, de encarar corpo-a-corpo pessoas de carne e osso.

4 Maio, 2015

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