Afinal, que música tocar na Missa?

11 respostas e 5 erros comuns

O que torna uma música apta a ser usada na Liturgia? Há instrumentos proibidos nas celebrações litúrgicas? Quais os erros mais comuns do uso da música ?

Estas e outras questões são frequentemente levantadas por quem colabora na animação da Liturgia.

O Presente Leiria-Fátima foi esclarecer estas e outras questões junto do padre António Cartageno, sacerdote da Diocese de Beja que é um dos nomes cimeiros da música litúrgica em Portugal.

O também responsável do Serviço Nacional de Música Sacra faz uma leitura da realidade atual e diz que é “necessário preparar mais pessoas para exercer o ministério da música sacra”.

(Publicado na edição n.167 do Presente Leiria-Fátima)

 

O que é a música sacra?

Segundo a Instrução Musicam Sacram (documento para a aplicação da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II) “entende-se por música sacra aquela que, criada para o culto divino, possui as qualidades de santidade e perfeição de forma. Com nome de música sacra designam-se: o canto gregoriano, a polifonia sagrada antiga e moderna nos seus vários géneros, a música sagrada para órgão e outros instrumentos admitidos, e o canto popular, sagrado ou litúrgico e religioso.”

De que forma a música e o canto ajudam na prática religiosa?

O homem, criatura de Deus, está marcado pelo dedo do seu Criador. A maneira de soltar e exprimir essas marcas é o sonho, a poesia, a música, a arte. A linguagem das artes e particularmente a da música, mais do que qualquer outra linguagem, aproxima o homem do mistério, da fonte da beleza, de que ele próprio participa. Deus é pura Beleza. Deus é Amor. Quem ama canta. Por isso o homem, marcado por Deus, canta ao seu Deus. A música sacra é, assim, uma mediação que leva o homem a Deus e traz Deus ao homem.

Como compositor, entendo que a música sacra é feita para envolver as pessoas, para as tocar e provocar nelas a abertura à transcendência. Se é verdadeira arte, ela não deve ficar pelo sentimento, pelo “bonitinho”, tem de ir mais fundo, apanhar a emoção, a sensibilidade, numa palavra: tocar o coração, para o abrir a Deus e ao Seu mistério!

O compositor que cria a obra, o coro, o cantor ou a simples comunidade de fiéis que canta devem fazê-lo de modo a transmitir uma mensagem de beleza e de santidade que provoque a admiração, a comoção, a adoração de Deus, a glorificação, ajudando a assembleia a aproximar-se de Deus e a experimentar a sua presença. A Música Sacra deve, portanto, cumprir o fim que lhe atribuem os documentos da Igreja, sobretudo a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II: “A glória de Deus e a santificação dos homens” (S.C. 112).

Como classifica o atual repertório litúrgico musical em Portugal?

Creio poder afirmar que estamos no bom caminho. Desde os anos 70 do séc. XX que temos musicados todos os salmos responsoriais; o essencial da música para a Liturgia das Horas também está acessível, em 3 livros volumosos; para o Próprio da Missa estão publicados 2 livros com muitas propostas interessantes e para o Ordinário da Missa está pronto a sair um livro também com muitas propostas com vários níveis de exigência. Constata-se que a oferta de repertório litúrgico-musical entre nós é já muito abundante e de razoável qualidade, nada ficando a dever ao que se faz noutros países da Europa. Sublinhe-se, a propósito, o testemunho imparcial de estrangeiros que nos visitam e participam nas nossas liturgias e manifestam a sua admiração e apreço pelo que vêem e ouvem…

É certo que uma coisa é haver repertório e outra é pô-lo em prática. Mas é inegável uma certa melhoria – lenta mas progressiva – nos últimos 25 a 30 anos, se compararmos com a pobreza musical das duas primeiras décadas do pós-concílio.

O repertório que existe não é posto em prática?

Aí é que está o problema! Muita gente, como não tem formação, vai pelo mais fácil e imediato. Recorre-se com frequência a música predominantemente rítmica, inspirada em modelos profanos, por vezes com textos muito pobres, e ignora-se por completo a proposta litúrgica. Ou então vão-se repetindo quase sempre os mesmos cânticos, por vezes desfasados do contexto celebrativo.

Felizmente também há muitas comunidades com pessoas preocupadas em cantar os cânticos próprios de cada domingo e há várias propostas na internet e em jornais diocesanos que ajudam a uma escolha cuidada e criteriosa.

“Alguém disse que as celebrações do matrimónio estão a tornar-se uma selva onde tudo pode acontecer no campo da música!”

O que há ainda a fazer a este nível?

Claro que nem tudo são rosas. Há ainda muita coisa a melhorar. Pela falta de formação musical e litúrgica, em muitos grupos e comunidades celebrantes há cedências à ligeireza e à superficialidade. Muitos fazem o que podem, mas contentam-se com os mínimos. É necessário prepararmos mais pessoas para exercer o ministério da música sacra e é também necessária mais atenção e empenho por parte dos pastores.

Um sector onde as coisas não vão muito bem: as celebrações dos casamentos, que estão invadidas de música comercial, completamente fora do contexto litúrgico, muitas vezes com grupos que anunciam os seus serviços na internet, mas não estão ligados à prática regular da música sacra. Depois, o repertório é o que se sabe… Alguém disse que as celebrações do matrimónio estão a tornar-se uma selva onde tudo pode acontecer no campo da música! A propósito, o Secretariado Nacional de Liturgia está a preparar uma coletânea de propostas musicais que poderão dar resposta a esta situação.

 

O que pode ser feito para melhorar a qualidade da música nas paróquias?

Pode ser criado um pequeno grupo de pessoas capazes de assegurar o canto. Depois, preparar, formar, ou proporcionar formação a essas pessoas no campo específico da música. Para isso, as Paróquias terão de investir algum dinheiro. É preciso semear para depois colher os frutos. Sem pessoas minimamente preparadas (organistas, diretores de coro/assembleia) não poderá ser boa a qualidade da música das nossas celebrações.

É importante começar pelas crianças: são as que estão mais receptivas e que aprendem melhor. Um coro de crianças numa paróquia é uma verdadeira bênção de Deus! Também o celebrante deve fazer um esforço por cantar bem o que lhe compete na celebração. Antes de cada celebração dominical deve assegurar-se um breve mas pedagógico ensaio à assembleia.

“Não devem usar-se na celebração Eucarística instrumentos que estejam ligados a contextos profanos, estranhos à liturgia.”

Há instrumentos proibidos nas celebrações litúrgicas?

Através da história, a proibição ou aceitação dos instrumentos na liturgia esteve dependente sobretudo da sua conotação psico-sociológica e da sensibilidade da Igreja em cada época.

A Igreja prefere instrumentos que estejam, segundo a tradição, ligados à vida religiosa do homem. Ela sabe que os instrumentos usados em determinado contexto assumem o significado desse mesmo contexto. Assim se compreende que muitos instrumentos tenham sido proibidos na liturgia – e continuem a sê-lo – pelo simples facto de estarem conotados com situações ou vivências muito distantes da cultura.

Tendo em conta que a Palavra de Deus tem na liturgia o primeiro lugar, nada se podendo sobrepor-lhe, encobrindo-a, minimizando-a ou neutralizando-a:

E que instrumentos são esses?

Não devem usar-se na celebração Eucarística instrumentos que estejam ligados a contextos profanos, estranhos à liturgia. Por exemplo: acordeon, guitarras elétricas, baterias, certo tipo de registos de órgão (vibrato).

Que instrumentos se devem preferir?

O órgão de tubos, o órgão eletrónico que se lhe assemelhe, o quarteto de metais, a viola clássica (dedilhada), a flauta transversal e a de bisel, as cordas da orquestra, são instrumentos que se devem preferir para a liturgia por razões históricas, tímbricas, vivenciais e culturais. Também algumas palhetas poderiam entrar nestes instrumentos. O clarinete e mesmo o oboé, em passagens solísticas, não ficariam mal.

Pela minha própria experiência posso dizer que o uso dos instrumentos na liturgia pode ter um leque muito variado de combinações. Tudo depende do cântico e do momento ritual em que ele se insere.

Os compositores litúrgicos são uma espécie em vias de extinção?

De modo algum! No nº 12 da sua Carta aos Artistas, sob o título “A Igreja precisa da arte”, o Papa S. João Paulo II escreveu:

“A Igreja tem necessidade dos músicos. Quantas composições sacras foram elaboradas, ao longo dos séculos, por pessoas profundamente imbuídas pelo sentido do mistério! Crentes sem número alimentaram a sua fé com as melodias nascidas do coração de outros crentes, que se tornaram parte da Liturgia…” .

Mas, digo eu, a história continua e o mesmo Espírito criador de Deus que, nos 20 séculos da tradição da Igreja, suscitou em tantas pessoas o dom da música para o Seu louvor, continua a suscitar nos crentes, também no nosso tempo, vocações para a música sacra. Elas aí estão, um pouco por toda a parte, e também em Portugal…

O que torna uma música apta para ser usada na liturgia?

Uma música só é apta para usar na liturgia se ajudar a elevar o espírito dos fiéis a Deus, se fomentar na assembleia o espírito comunitário, se solenizar verdadeiramente as celebrações, enfim, se tem as características exigidas pela Igreja:

A santidade: o sentido da oração, da dignidade, da beleza.

A bondade das formas, que seja verdadeira arte, que tenha valor objetivo, isto é, que seja fiel às leis da linguagem musical.

A adesão aos textos, que ajude a enaltecer o texto.

Que seja fator de comunhão, que comova e exalte.

Já o Papa S. João Paulo II escrevia na sua Carta Apostólica sobre a santificação do domingo: “ Há que ter a preocupação da qualidade, tanto no que se refere aos textos como às melodias, para que tudo aquilo que de criativo e original hoje se propõe, esteja de acordo com as disposições litúrgicas e seja digno da tradição eclesial que, em matéria de música sacra, se gloria de um património de valor inestimável.”

5 erros comuns do uso da música litúrgica

Por António Cartageno

Não respeitar o justo andamento dos cânticos

É um dos erros mais comuns. Muitas vezes canta-se demasiado lento, outras exageradamente apressado. Há cânticos bons que ficam completamente estragados pela fraca interpretação.

Não respeitar o ritmo e a dinâmica das palavras

Este erro acontece mesmo em coros com alguma preparação, quando, por exemplo, se acentuam sílabas finais que, normalmente são átonas (leves) por natureza.

Má articulação do texto

O que o torna pouco claro e compreensível. Muitas vezes, também não se respeita o ritmo da frase, respirando em momentos inadequados.

Não se respeitar a música que está escrita,

Roubando tempo nos pontos de aumentação.

Desafinação

Um dos erros mais aflitivos, especialmente nas notas agudas.

 

Algumas dicas

Nas Eucaristias dos Encontros Nacionais de Liturgia de Fátima dos últimos anos têm-se feito algumas interessantes experiências, aproveitando os instrumentistas que participam no Encontro. Refiro algumas:

– O órgão, naturalmente, e alguns apontamentos de trompete nas partes mais exuberantes do texto e da música, particularmente nas aclamações, (Santo, Aleluia, Ámen final da Anáfora…), pelo facto de, por sua natureza, deverem integrar elementos de ordem emotiva.

– Órgão, trompete e flauta, para os cantos processionais (Entrada e Comunhão) e para o Glória, poderão dar um tom festivo alegre e majestoso à celebração…

– Órgão e/ou clarinete, ou flauta, ou violino, por ex. para o Salmo Responsorial. O recitativo do Salmo requer um acompanhamento muito discreto e contido, com um uso sábio e equilibrado dos registos do órgão, de modo a que a Palavra proclamada chegue corretamente às pessoas.

– No Salmo também ficaria bem uma viola clássica (guitarra dedilhada), mas bem tocada, usando arpejos….

– O grupo de metais, com ou sem órgão, fica sempre bem nas aclamações e nos refrões dos cânticos, criando um clima vibrante, solene e majestoso…

 

Mais informação

Biografia do padre António Cartageno

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