Vós sois todos irmãos!

31º Domingo do Tempo Comum – Ano A

*A relação com Deus e com os outros baseia-se na gratuitidade, e não na força do contrato*. Ao dom do convite e da graça de Deus corresponde, do nosso lado, a dedicação humilde, modesta e diligente. Quando Jesus nos apelida de servos ‘inúteis’, é para não nos tomarmos demasiado a sério ou indispensáveis, nem nos atribuirmos louros alheios.
*Saber festejar o tempo comum*. Na vida, há datas festivas, mas também tempos feriais. É pela vivência do normal que se conquista a eternidade. Pelo humano se atinge e granjeia o divino. O tempo presente é o único de que dispomos para nos salvar. O heroísmo passa pela manutenção do esforço ordinário.
*A vida é o maior tesouro que temos entre mãos*. Em vez de nos limitarmos a sobreviver e a suportar o fardo das canseiras, deveríamos apreciar e saborear o dom da vida. Cada ato é definitivo, único e exclusivo, determinante e irrepetível, significativo e salvador. A vida presente é um laboratório de ensaio, um estágio para a eternidade, um treino e um jogo, um exercício de felicidade ou de condenação: cada dia, morro ou vivo, salvo-me ou condeno-me, inauguro o céu ou crio o inferno. A que realidades dou eu valor e seleciono ou que coisas relativizo e abandono? A que é que me apego ou de que me desprendo? Que herança lego aos demais e que património transporto comigo?
*‘Quando tiverdes feito o que vos foi mandado, dizei: ‘Somos servos inúteis!’* (Lc 17, 10). Entram neste ramo os trabalhadores que labutam pelo Reino, mas no meio da obscuridade. As comunidades cristãs cimentaram-se, não com pessoas decorativas, mas com operários humildes, que colocaram ao serviço de Deus e dos irmãos os ombros doridos e um sorriso aberto. Levantaram a cabeça, não para serem coroados, mas para limparem o suor da fronte. Só merece o glorioso cognome de inútil quem tiver feito o que lhe foi ordenado e souber ao serviço de quem está, Deus, que o torna também eficiente e útil.
*São Francisco de Assis definia-se como ‘o último e o mais pequenino’*. Considerava-se um servo inútil, mas não disponível para outra coisa que não fosse a causa do Evangelho. Era um servo que se inclinava perante Deus e os irmãos, mas nunca se dobrou perante os grandes da terra. Servo, mas nunca servil, nem domesticável nem manipulável. Servo, mas não adulador, nem disposto a alinhar em interesses e vaidades humanas.
*Deus é nosso Mestre e Senhor e trata-nos por amigos*. A Igreja é, por definição, a academia da caridade, pois nela se aprende, em cursos intensivos e por toda a vida, a servir e a amar. Que os demais vejam em si uma propriedade que lhes pertence, repetia São João da Cruz a uma irmã religiosa. Qualquer tipo de vocação na igreja é uma empresa expropriada e nacionalizada, totalmente dedicada aos outros.
*Somos todos irmãos*. Quem é pobre não tem criados nem gosta de ser servido. O cristão, ao trabalhar por Deus e pelos outros, sabe que está a lutar pela sua própria causa. Acolhe a devida paga e sente-se, por isso, verdadeiramente feliz, ou seja, beato e santo.

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