Rei, Pastor e Servo

34º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Longe vai o tempo, em 1925, em que a Solenidade de Cristo-Rei foi instituída pelo Papa Pio IX, com o objectivo de que a figura da realeza de Cristo se impusesse ao ateísmo e à secularização, que então se desenvolviam e hoje imperam, numa subtil aliança entre a Igreja e o Estado que felizmente se esfumou com o tempo e as transformações sociais.
Mas a verdade vem sempre ao de cima. Aquela realeza de Cristo era uma realeza às avessas daquela que o Evangelho nos apresenta e pela qual o Senhor deu a vida. Felizmente, com o tempo foi-nos restituído o verdadeiro Cristo-Rei, porque a realeza de Cristo só se realiza em plenitude no Amor.
O conceito que se tem habitualmente de um Rei é o de ser aquele de quem se espera a última palavra, com todo o seu poder decisório. Esse conceito esbarra com aquele que Jesus Cristo nos transmite. Com efeito, sendo rei Cristo “aniquila a soberania, a autoridade e poder”(1 Cor, 15, 26). Esta prática não faz parte da nossa experiência habitual, mesmo nos países caracteristicamente monárquicos. Jesus Cristo inverteu totalmente as perspectivas tradicionais da realeza. Por isso, Cristo chama-nos a amar e a servir os que não têm nem autoridade, nem soberania, nem poder: são os crucificados deste mundo. São os pobres, os doentes, os famintos, os sem-abrigo, que dificilmente são recuperados, por tantas mazelas que trazem. Mas há outros: os idosos, que sentem que são um peso para a família, ou que estão armazenados num lar, sujeitos ao que a magra reforma pode pagar e os que vivem sós, tão sós que os vizinhos nem dão pela sua existência – “Ah! Estava morto?! Não o via há muito!”
Neles, Cristo-Rei está presente e chama-nos a restituir-lhes a sua realeza, a sua face de Filhos de Deus. A nossa realeza, ensina-nos Cristo, é para que sejamos pastores. Para procurarmos entre os silenciosos, o seu desejo da palavra e sarar a timidez ferida, para procurarmos os que sofreram a experiência da rejeição, e neles deixarmos o amor, o acolhimento, a palavra que consola e abre novos caminhos. Aprendemos que nada nos pode impedir de responder com amor ao sofrimento do mundo e de acolher o amor que nos é dado, quando somos nós que estamos cobertos pela dor.
Bem- aventurados sejam aqueles, que ignorando o Evangelho, se fazem peregrinos, cireneus dos que sofrem, restituindo-lhes a sua dimensão humana de Filhos de Deus. Participam de construção de um caminho para uma humanidade nova, que habitará na casa do Senhor, para todo o sempre. (Sal. 22). Porque todos são epifania de Deus. P

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