Os ‘passadiços’ da salvação

Domingo de Páscoa – Ano B

*Páscoa significa passagem, transferência de um local para outro*. Com Israel, a primeira páscoa aconteceu com a saída inesperada e intempestiva da casa da escravidão – o Egito -, seguida da travessia do Mar Vermelho, da peregrinação pelo deserto e da entrada na terra prometida. Foi um percurso longo, arrastado e doloroso, em que o povo teve de se purificar aos poucos da ideia de Deus, seu libertador, renunciando a tentações que provinham de vizinhos, que adoravam ídolos e deuses estranhos. Coube aos profetas e aos responsáveis religiosos corrigir e cimentar a órbita da fidelidade a Deus e vincar a certeza de que só Ele garantia a estabilidade, o crescimento e o prestígio desta ‘grande nação’.

*Após a primeira etapa deste difícil vau da fé, palmilhou-se o segundo passadiço, com a revelação plena da ternura de Deus*, através da revelação de Jesus Cristo, que por nós deu a vida e ressuscitou. Levou tempo a sinalizar e percorrer este itinerário, a nível eclesial. Os atilhos da lei mosaica enquistaram a mentalidade da Igreja nascente, e só a abertura e a ousadia do Espírito conseguiu derrubar óbices e fronteiras e insuflar a aragem do Evangelho no mundo inteiro. A entrega do Mestre na cruz – escândalo para os judeus e loucura para os gentios (1 Cor 1, 23) – tornou-se, sobretudo, sinal de contradição, e o culto do dolorismo religioso anestesiou, durante séculos, a maioria dos cristãos, como a desconfiança e o medo o fizera com as primeiras testemunhas da ressurreição. Só a alegria e a simplicidade da vida dos fiéis permitiu perceber que o Senhor nos havia salvado, não por ter sofrido muito, mas por ter amado até ao fim e continuar vivo e como garantia da nossa fé.

*Graças a Ele, sabemos que a morte ilegítima, um absurdo e um insulto intolerável*. O Deus dos vivos tornou-se a nascente e a foz do rio da nossa felicidade. Entoamos um hino à vida, quando amamos e nos sentimos amados, solidários e criativos; quando abandonamos o túmulo do desânimo, da inércia, do ressentimento e do pecado; quando somos capazes de apreciar o rosto dos outros, deixamos cair as máscaras e recuperamos a forma original. Todos os dias necessitamos que nos desenfaixem, como a Lázaro, para nos sabermos recriados, revisitados, tratados pelo nome e respeitados. Doutra forma, continuaremos deformados e desfigurados, prestes a entrar em estado de decomposição. Mas nós somos um monumento vital, e não um mausoléu!

*A exemplo de um passadiço, que é uma estrutura viária que possibilita a contemplação aérea e sustentada de um panorama maravilhoso*, também a fé nos fornece uma visão meridiana da nossa caminhada, da riqueza interior dos irmãos e da presença amorosa e contínua de um Deus, que nos norteia e acompanha. Como os discípulos de Emaús, temos de proceder a uma nova deslocação: vencer a prostração e acompanhar o divino peregrino, para que o nosso coração se incendeie e nos faça regressar, célere e festivamente, ao seio da comunidade cristã (Lc 24, 33). P

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *