O Senhor permanece

02º Domingo da Quaresma – Ano B

A liturgia da palavra do Domingo II da Quaresma apresenta-nos a história de Abraão e Isaac. É uma história de fé. A narração envolve-nos de tal forma que gera em nós a pergunta: porque estará Deus a fazer isso? O narrador não nos prepara para o seu final. Ao fim apercebemo-nos da providencia de Deus, que salva Isaac e confirma Abraão, e da mensagem que o texto nos quer transmitir. Abraão é modelo de fé e obediência a Deus. De algum modo, numa leitura cristã do Antigo Testamento, vemos refletido nesse evento, com Abraão e Isaac no monte Moriá, o acontecimento do monte Calvário, na cruz e morte de Jesus, Filho único de Deus. Ele entregou o seu Filho, sacrificou-O efetivamente, para que fossemos salvos, justificados. Contudo, Deus, que poupou Isaac e não poupou Jesus, ressuscitou-O para que, como diz São Paulo na segunda leitura, à direita de Deus intercedesse por nós. Temos, pois, em Abraão um modelo para a nossa fé e em Jesus a confirmação de todas as verdades que a nossa fé proclama. Quem nos acusará, portanto? Quem nos condenará? Em Jesus encontramos a resposta, a salvação e a vida. Assim, nesta perspetiva, o Evangelho apresenta-nos o episódio decorrido noutro monte, o Tabor, que é palco da Transfiguração do Senhor. Ali, Ele revela-se glorioso a Pedro, Tiago e João, como no monte Calvário (Gólgota) se revelará glorioso, pela sua morte e ressurreição, a toda a humanidade. Provavelmente a presença de três discípulos ali no Tabor não seja por acaso, visto que o número três na Bíblia tem esta simbólica de plenitude, de totalidade. A revelação de Jesus, diante de Moisés e Elias e diante dos três discípulos, que simbolizam a nossa presença ali no Tabor com Jesus e fazem de nós também testemunhas da sua glória, marca o centro do Evangelho de Marcos e centra-nos no essencial da nossa fé: a Ressurreição do Senhor. O acontecimento do monte Tabor é a revelação da glória do Senhor e da glória futura que nos está reservada. Por isso, Pedro exclama, como qualquer um de nós exclamaria: “é bom estarmos aqui”! Marcos refere que os discípulos estavam atemorizados. Esta palavra, no contexto hebraico, pode significar bem mais que medo. O temor do Senhor, que provavelmente era o sentimento dos três apóstolos, significa respeito, submissão e, bem mais, adoração.  Surge então a voz de Deus. Deus fala. O que fala? Fala a respeito de uma outra voz que deve ser ouvida: “Escutai-O”! Jesus é a voz, a Palavra a ser atendida. E de repente, o silêncio! Jesus está ali sozinho com eles. A maneira como termina este trecho do Evangelho de Marcos é intrigante. Os apóstolos, envolvidos pelo temor do Senhor, ouviram a voz de Deus. Certamente estavam prostrados, cobrindo o rosto. Depois do silêncio, não estando ali mais ninguém, viram Jesus sozinho com eles. O Senhor permanece. A Palavra a ser acolhida continua presente. Este será o fruto da Ressurreição do Senhor: a sua presença entre os discípulos. Ele está no meio de nós!

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