O nosso Deus é ‘periférico’

Domingo da Epifania do Senhor

*Deus é luz e esplendor, e revela-se contínua e não intermitentemente*. Aos Magos, fê-lo através de uma estrela; e, a nós, chega pela via do mistério, da novidade e da surpresa. Só aparece aos que O procuram, n’Ele colocam os olhos e permitem que lhos abra.
*Necessitamos, pois, de descobrir onde Ele mora*. Para além da residência habitual no íntimo do cada ser, estabelece a sua mansão, como em Belém, nos recantos da periferia, no coração dos mais pobres e marginalizados. Quando nós, cristãos, que somos os seus familiares, temos dificuldade em acreditar n’Ele – ‘Estão lá fora os da tua família, que desejam falar-te’ -, são os de longe, os pagãos (pastores, publicanos e pecadores), a entrar no naipe dos escolhidos: ‘Todos os que fazem a vontade do Pai’.
*Somos crentes, mas devemos também ser credíveis*, pois uma coisa é acreditar e outra experimentar; uma coisa é conhecer o caminho, outra aventurar-se por ele; uma coisa é fornecer informações, outra tornar-se sinal e precursor dos demais; uma coisa é cognominar-se cristão, outra optar e esforçar-se por o ser, cada dia.
*Paradoxalmente, muitas vezes é indispensável que se apague o sol*, para nos reconhecermos desnorteados, e ansiarmos pela Luz. Jerusalém estava mais iluminada que um céu estrelado, mas, ao entrarem nela, os Magos viram-na apagada, e perderam-se. Mas, logo após, a estrela, que os orientara antes, explodiu em fulgor matutino.
*Talvez o problema da Igreja não resida tanto nos que fugiram de casa ou andam perdidos*, mas nos que estão a nosso lado, que, desiludidos, se não reveem no nosso comportamento e se sentem escorraçados.
*O maior ato de fé traduz-se na adoração*. Os Magos vieram para adorar Jesus, e não tanto para oferecer dons. O poder de Herodes estremeceu, e ele sentiu-se ameaçado pela chegada destas pessoas, pois o ignoraram, já que vinham à procura do Absoluto, do Menino Deus.
*O verdadeiro adorador de Deus é um explorador das realidades ocultas*: é alguém que procura, interroga, perturba e incomoda os indiferentes. Aquele que encontra uma estrela, adquire o estatuto de planeta: depois de receber a luz de Outrem, transforma-se em luzeiro e consegue iluminar os demais.
*Adorar é abrir e colar a boca e o coração a Deus e aos outros*, pois a fé conjuga-se, sobretudo, com os joelhos. Os Magos descobrem que levam para casa mais do que haviam trazido, ou seja, o próprio Deus. Voltam à sua terra por outro caminho, isto é, passam a oferecer-se a si mesmos.
*No ofertório do presépio, o incenso simboliza a ternura*, que dá sabor e perfume à vida cristã. Somos todos turíbulos ambulantes, que purificam ecologicamente as relações entre os irmãos.
*O ouro representa o diálogo*, pois fomenta e consolida o intercâmbio mútuo, e torna dúcteis, inalteráveis e imunes às contrariedades, os membros da comunidade eclesial.
*A mirra indicia a oração*, já que nos transmite a certeza de que Deus ratifica e abençoa os projetos humanos e nos capacita para perdoar, amar e ser santos. P

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