O cristão deve ter um coração, à escala do mundo

05º Domingo do Tempo Comum – Ano B

*Marcos sintetiza e localiza hoje a ação de Jesus, em três espaços fundamentais*: a igreja (simbolizada na sinagoga judaica), espaço sagrado, onde a comunidade cristã se congrega, é doutrinada pela palavra de Deus e se sente curada pelos sacramentos do perdão e do pão; a casa de Simão, espaço privilegiado da ternura e do amor; e a vida profana (simbolizada na porta de saída da casa), perante a qual decorrem as atividades públicas e o convívio entre as pessoas. Os três locais não se opõem, mas são complementares. Constituem pontos de encontro com Deus, e é neles que Jesus realiza numerosos milagres.

*Nesta linha, não se esqueça que a sogra de Simão Pedro foi entronizada como padroeira do serviço comunitário*. Estava com febre e de cama, e Jesus agraciou-a com a cura. Ela agradeceu a benesse, colocando-se em atitude de serviço. O que indica que não apenas foi libertada das maleitas físicas, mas também da febre que a impedia de ajudar os outros. Tornou-se, assim, mais caseira e generosa, mais atenta e serviçal.

*O mesmo acontecia, aliás, com todos os miraculados*: após o toque terapêutico de Jesus, reagiam com duas mostras de gratidão: abriam as goelas (quer dizer, proclamavam a glória de Deus e as maravilhas que neles operara), de tal modo que Jesus não os conseguia fazer silenciar; e seguiam no encalço do Mestre, incorporando-se como discípulos e identificando-se com Ele.

*Pedro, entretanto, esforça-se por forçar Jesus a deixar a oração*, para se dedicar exclusivamente à multidão, que o aclama (‘Todos Te procuram’), mas faz de tentador, porque pretende desviar o Mestre do projeto divino. É como se Lhe segredasse: ‘Estás aqui a perder tempo! Devias saborear o êxito popular!’. Jesus anula a pretensão de Pedro e faz-lhe ver que a oração é um ponto de partida e de chegada, lugar de cumplicidade entre nós e Deus, onde adquirimos alma de peregrinos, prontos a descobrir novas paisagens e irmãos necessitados, a agir sem calculismos, livres e disponíveis para o serviço universal.

*Jesus responde: ‘Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas…pois foi para isso que vim’*. Ele sente o apelo e as carências de cada pessoa, porque busca, escuta, desperdiça o seu tempo e tem comiseração dos seus filhos. Os milagres que vai requerer aos seus discípulos são sinais terapêuticos: a solidariedade para com os pobres e os marginalizados da sociedade, a capacidade de anunciarem festivamente o amor de Deus e de denunciarem corajosamente o que oprime e esmaga as pessoas, a credibilidade de viverem a sério daquilo que proclamam.

 

 

*O cristão não é chamado a realizar feitos mirabolantes*, mas a ser autêntico no que faz e a viver essencialmente do Evangelho. Mercê do jeito e de atitudes de irmão, tem de cultivar a misericórdia e a bondade. Ele chama-se católico, porque os seus olhos abarcam as dimensões do mundo. E é ecuménico, porque se sente capaz de interpretar e de compreender os idiomas, as tensões e os sentimentos de toda a humanidade. P

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