“Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia”

02º Domingo de Páscoa – Ano B

A morte não pôde chamar seu aquilo que lhe pertencia porque a Vida venceu a Morte e rompeu as “portas fechadas” dos discípulos, prisioneiros do medo e da dispersão. Jesus não chamou seu àquilo que lhe pertencia e, por isso, soprou sobre nós o seu Espírito, deu-nos a sua paz, fez-nos ministros da misericórdia, enviou-nos em missão. Os discípulos não chamaram sua a fé que abraçaram nem à experiência do Ressuscitado que tiveram e, por isso, deram testemunho do Cristo vivo junto de Tomé e de todo o povo: “Vimos o Senhor!” (Jo 20,25). Tomé, apesar de incrédulo, voltou à comunidade ao “Oitavo Dia” e perdeu o que lhe pertencia – a sua incredulidade -, quando viu o Senhor, caindo de joelhos para a profissão verdadeiramente crente: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). Os discípulos não chamavam seu ao que lhes pertencia e começaram a sentir que “tinham um só coração e uma só alma!” (At 4,32). Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, quando havia necessitados e a opulência gritava por solidariedade. O ofendido não chamava seu ao que lhe pertencia e aprendeu a ser ministro da reconciliação, arauto do perdão, construtor da paz. Acreditar em Jesus é nascer de novo, viver como filhos de Deus, cumprir o mandamento do amor e do perdão (cf. 1 Jo 5,1-6).

Vivemos num mundo egocêntrico. Quando se trata de direitos tudo se conjuga na primeira pessoa. Quando se trata de deveres tudo se conjuga na segunda e terceira pessoa. As desigualdades tornaram-se gritantes e abismais. A cidade é um retrato deste mundo sem coração nem alma. O interior e o litoral são realidades divorciadas. Sociologicamente quase todos se sentem de tradição cristã, mas na realidade já se conformaram com um país às tiras, injustamente tratado. Em muitos casos está-se à espera que morra o último habitante para criar aldeias-museu para vender como turismo rural e de natureza. A desertificação e os fogos são apenas um grito surdo de alguém que está moribundo e se habituou ao luto. Precisamos de um novo “sopro do Espírito do Ressuscitado com marcas de crucificado”. Precisamos duma fraternidade sustentada pela solidariedade e não pela ganância. Precisamos dum “Oitavo Dia” em que o Senhor rasgue os nossos muros e o amor seja primavera e a alegria vinho novo na grande mesa da Eucaristia!

Senhor, Fonte da vida, ajuda-nos a ser canais da graça e da paz, neste deserto de ilhas atulhadas e amuralhadas. Vem Espírito da Verdade e cria uma rede nova de corações em comunhão, capazes de sair da frente da televisão e do virtual para abraçar o irmão na casa da Igreja, em Domingo festivo e solidário. Vem Espírito de reconciliação e ensina-nos a ser servos da misericórdia e do perdão, neste mundo ressentido e amuado, dividido e divorciado, indiferente e comodista. Nós cremos que “a vitória que vence o mundo é a nossa fé” (1 Jo 5,4)! P

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *